5 de setembro de 2019

O CAMINHO PARA O PARAÍSO


[Capa004.jpg]

. “O suicídio não é cometido por desespero; é um acto de esperança do qual decorre uma elevação no estatuto suicida. Alguns bombistas suicidas sentem-se em conexão directa com o omnipotente Alá” - Prefácio


Talvez tenha sido a sua última hipótese de fuga antes que o marido a maltratasse, dado que aparentemente estava farto dela, ou talvez houvesse outro homem na sua vida, ou existiam apenas rumores nesse sentido. Foi uma saída honrosa, impedindo que a humilhação se abatesse sobre si e sobre a sua família.
Recordo-me de algo que ouvi nesse contexto, «Não era uma shahida, era uma sharmouta» (ou seja não foi uma mulher que morreu como mártir em nome de Alá, era apenas uma prostituta), e ouvi-o da boca da boca de Murad, um jornalista árabe que me acompanhou várias vezes quando entrevistei indivíduos fora das prisões israelitas. Ele acrescentou: «foi melhor para ela morrer do que ser assassinada, e até levou dois soldados [israelitas] consigo, pelo que todos os seus pecados foram esquecidos." 

- pag. 16      

GLOBALIZAÇÃO - A GRANDE DESILUSÃO



A luta contra a globalização vai buscar a sua força à consciência dos malefícios causados aos países em desenvolvimento por politicas movidas pela ideologia e às injustiças do sistema do comércio internacional. Hoje em dia poucos - excepto aqueles cujos interesses ocultos são beneficiados com a exclusão dos produtos pobres – defendem a hipocrisia que consiste em fingir que ajudam os países em desenvolvimento, obrigando-os a abrir os seus mercados aos produtos dos países industriais avançados, cujos mercados se mantém protegidos. Estas políticas tornam os ricos mais ricos e os pobres ainda mais pobres, e cada vez mais revoltados.

Os ataques bárbaros de 11 de Setembro de 2001 recordam-nos com força que partilhamos o mesmo planeta. Somos uma comunidade global e, como todas as comunidades, temos que respeitar algumas regras para podermos viver em conjunto. Essas regras têm de ser, e de parecer, equitativas e justas, devem contemplar tanto aos pobres com aos poderosos e devem reflectir um sentido fundamental de honestidade e justiça social. No mundo actual, essas regras devem decorrer de processos democráticos; as regras pelas quais se pauta a actividade do governo e das autoridades dêem garantir que têm em consideração e que correspondem aos desejos e às necessidades de todos aqueles que são afectados por políticas e decisões tomadas em lugares distantes


JOSEPH E. STIGLITZ

A PIOR DE TODAS AS GUERRAS 


"O genocídio (independentemente de como for definido), os assassínios em massa de menor dimensão e as outras forma de eliminação fazem parte de um continuum e, muitas vezes, os perpetradores usam vários meios eliminacionistas conjugados entre si. Assim, tratar o genocídio como um fenómeno qualitativamente diferente, descontinuo em relação às outras formas de eliminação em massa, além de ser conceptualmente insustentável, viola a realidade da politica e prática eliminacionistas."  


Eliminacionismo: transformação, repressão, expulsão, prevenção de reprodução, exterminação

DANIEL JONAH GOLDHAGEN

UMA HISTÓRIA DAS MULHERES

O uso do véu era corrente no mundo mediterrâneo antigo. Mas sem obrigação religiosa. É verdade que se cobre a cabeça em numerosos ritos sacrificiais greco-romanos; mas é uma prática dos dois sexos. Nem o «Antigo Testamento» nem os Evangelhos apontam exigências neste aspectos.
O apóstolo Paula inova. Na «Primeira Epístola aos Coríntios» (11, 5-10), escreve que nas assembleias, os homens devem descobrir-se, e as mulheres, cobrir-se. «E toda a mulher que reza ou profetiza, com a cabeça descoberta, desonra a própria cabeça, porque é como se estivesse rapada. Se uma mulher não se cobrir, corte também os cabelos. E se é vergonha para a mulher ter os cabelos rapados, então que se cubra.» E porque a mulher foi criada para o homem, «a mulher deve trazer sobre a sua cabeça um sinal de sujeição, por causa dos anjos.»

As mulheres devem calar-se nas assembleias.

Velar-se se profetizam. Velar-se em sinal de dependência: «A mulher fica portanto obrigada a usar na cabeça um sinal de autoridade.»



(pag 58)

 MICHELLE PERROT 


CRIME OU CASTIGO?
DA PERSEGUIÇÃO CONTRA AS MULHERES ATÉ À DESPENALIZAÇÃO DO ABORTO














ELAS SOMOS NÓS

"A exposição pública, vexatória e desumana em que os julgamentos lançaram estas mulheres foram sentidas, por grande parte da população, como uma violência colectiva. Estes julgamentos provocaram o sentimento de que elas somos nós e creio que esse factor terá contribuído decisivamente para uma alteração na forma de pensar ajustiça ou injustiça da lei que regula o aborto." 

pag 47


ANDREA PENICHE 

MULHERES (IN)VISIVEIS

Mas, se são poucas as certezas, há, no que em particular diz respeito às agressões de que são vítimas as mulheres,uma hipótese que vale a pena sinalizar, ao menos como sugestão para pesquisa futura. É certo que essa hipótese é puramente regional, e que só se aplica na verdade ao Ocidente. Parece-nos contudo que ela é suficientemente relevante para dever ser assinalada no início deste relatório sobre a violência exercida em Portugal contra as mulheres. A hipótese é a seguinte:

Até finais dos anos 60, a violência contra as mulheres era uma violência institucionalizada (na família, no Estado, na medicina, e na sua óptica, na religião, etc. ). Na sua educação e na sua conduta, na sua sexualidade e em geral no seu corpo, no usufruto dos bens que lhe pertenciam e na sua liberdade de movimentos, na sua profissão, na expressão da sua espiritualidade, em todos os aspectos da sua vida, a mulher estava dependente de sucessivas autoridades, vivia sob o signo da mais absoluta e absurda transcendência. Nada verdadeiramente lhe pertencia. Da tutela dos pais passava para a tutela do marido. E esses dois poderes, por sua vez, eram apoiados e potenciados pela prática médica, pela jurisprudência, pelo confessionário e pela influencia das igrejas, pelos valores comummente partilhados pela sociedade.
Ora de tudo isto decorria que a violência exercida contra as mulheres era, por assim dizer, uma violência tranquila.

(pag. 20)


O LIVRO NEGRO da condição das Mulheres 


    "Humilhação, precariedade, maus-tratos conjugais, prostituição, criminalidade, desemprego, sexismo: as mulheres são sempre as primeiras vítimas. Pior, existem no nosso país zonas de sombra onde as mulheres vivem em estado de subordinação total, senão mesmo de escravidão, nas comunidades de imigrantes onde os costumes desafiam a lei. As crianças do sexo feminino podem frequentar a escola da Republica, mas são excisadas, usam véu, são casadas à força, violadas nas suas escolhas mais íntimas. Para estas raparigas, como para outras, o exemplo da França e sobretudo dos países escandinavos prova que só a lei e a sua impregnação no tecido social podem melhorar o destino das mulheres."

"No resto do mundo, mais de metade da humanidade, homens e mulheres, vivem no sofrimento. O sofrimento de ser pobre, de se estar mal alimentado, doente, de se ser iletrado, explorado. Mas é o sofrimento de se ter nascido mulher que lhe agrava todos os outros. Em todo o lado, a condição das mulheres mostra-nos a face mais negra das realidades contemporâneas. Elas são, simplesmente, inferiores. Impuras. Merecem apenas ser subjugadas, exploradas, espancadas, violadas, compradas, repudiadas. Nasceram para escravas. Votadas ao silêncio, ao esquecimento. Desprezíveis, em suma, indignas."

Chistine Ockrent