5 de setembro de 2019

MULHERES (IN)VISIVEIS

Mas, se são poucas as certezas, há, no que em particular diz respeito às agressões de que são vítimas as mulheres,uma hipótese que vale a pena sinalizar, ao menos como sugestão para pesquisa futura. É certo que essa hipótese é puramente regional, e que só se aplica na verdade ao Ocidente. Parece-nos contudo que ela é suficientemente relevante para dever ser assinalada no início deste relatório sobre a violência exercida em Portugal contra as mulheres. A hipótese é a seguinte:

Até finais dos anos 60, a violência contra as mulheres era uma violência institucionalizada (na família, no Estado, na medicina, e na sua óptica, na religião, etc. ). Na sua educação e na sua conduta, na sua sexualidade e em geral no seu corpo, no usufruto dos bens que lhe pertenciam e na sua liberdade de movimentos, na sua profissão, na expressão da sua espiritualidade, em todos os aspectos da sua vida, a mulher estava dependente de sucessivas autoridades, vivia sob o signo da mais absoluta e absurda transcendência. Nada verdadeiramente lhe pertencia. Da tutela dos pais passava para a tutela do marido. E esses dois poderes, por sua vez, eram apoiados e potenciados pela prática médica, pela jurisprudência, pelo confessionário e pela influencia das igrejas, pelos valores comummente partilhados pela sociedade.
Ora de tudo isto decorria que a violência exercida contra as mulheres era, por assim dizer, uma violência tranquila.

(pag. 20)


O LIVRO NEGRO da condição das Mulheres 


    "Humilhação, precariedade, maus-tratos conjugais, prostituição, criminalidade, desemprego, sexismo: as mulheres são sempre as primeiras vítimas. Pior, existem no nosso país zonas de sombra onde as mulheres vivem em estado de subordinação total, senão mesmo de escravidão, nas comunidades de imigrantes onde os costumes desafiam a lei. As crianças do sexo feminino podem frequentar a escola da Republica, mas são excisadas, usam véu, são casadas à força, violadas nas suas escolhas mais íntimas. Para estas raparigas, como para outras, o exemplo da França e sobretudo dos países escandinavos prova que só a lei e a sua impregnação no tecido social podem melhorar o destino das mulheres."

"No resto do mundo, mais de metade da humanidade, homens e mulheres, vivem no sofrimento. O sofrimento de ser pobre, de se estar mal alimentado, doente, de se ser iletrado, explorado. Mas é o sofrimento de se ter nascido mulher que lhe agrava todos os outros. Em todo o lado, a condição das mulheres mostra-nos a face mais negra das realidades contemporâneas. Elas são, simplesmente, inferiores. Impuras. Merecem apenas ser subjugadas, exploradas, espancadas, violadas, compradas, repudiadas. Nasceram para escravas. Votadas ao silêncio, ao esquecimento. Desprezíveis, em suma, indignas."

Chistine Ockrent



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