22 de novembro de 2010

TRANSPARÊNCIAS DA ALMA


ETERNIDADE 
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Era Primavera
E as magnólias vestiam-se de ternura
Havia cheiro de canela na tua presença
E sombras de danças no teu caminhar
Ao longe
Rodopiavas-te
E abraçavas a minha forma de loucura
Porque dizias
Que o meu juízo tinha sido feito para te embriagar
Estendias o brilho dos teus olhos
Pelas ruas que percorrias
E mesmo sem ver a tua face
Sei que sorrias
Trazias brinquedos da infância na mão direita
E eu, sem qualquer suspeita,
Acreditava que eram para mim
Os sinos tocaram só para os teus passos
E no vestido que desenhava o teu corpo
Estavam desenhados tantos laços
Que o teu corpo parecia não ter fim
Na tua outra mão trazias um cravo
Da cor da nossa liberdade –
Vermelho, como os de Abril
Lançaste-o ao ar
E ele coloriu toda a cidade
Gritaste o teu nome
E a multidão, assustada, veio às janelas
Às portas
Para o meio da rua
E formou uma fila brilhante e sadia
Beijaste o céu
E nele escreveste o meu nome
Mas depois, aos poucos, viste-me morrer
Depositaste as magnólias, os brinquedos e o cravo da liberdade
Sobre o meu peito
O meu ser começava a ficar desfeito
Mas aprendeste o meu nome
Eternidade.
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20 de novembro de 2010

DOIS APONTAMENTOS DO LIVRO "O LÍDER SEDUTOR"

do livro de CLARA PRACANA
"O LÍDER SEDUTOR"

“Em toda a parte as multidões são femininas (…)
Uma vez que as multidões apenas conhecem sentimentos simples e extremos, recusam ou aceitam em bloco as opiniões, crenças ou ideias que lhe são sugeridas e consideram-nas como verdades absolutas ou como erros não menos absolutos. Isto acontece sempre com crenças determinadas pela sugestão e não pelo raciocínio (…).
O autoritarismo e a intolerância constituem, para as multidões, sentimentos muito claros que elas suportam tão facilmente como põem em prática. Respeitam a força e a bondade impressiona-as pouco, pois consideram-na como uma espécie de fraqueza. As suas simpatias nunca têm como objecto as personalidades brandas, mas os tiranos que as dominam.
(Le Bon, 1895/n.d pp.29, 36 e 37)”


“As pessoas não precisam de acreditar em todas estas mentiras, mas têm de proceder como se acreditassem,ou pelo menos tolera-las em silêncio, ou dar-se bem com quem trabalha com base nelas. Por essa razão, no entanto, devem viver dentro da mentira Não precisam de aceitar a mentira. Basta-lhes ter aceite viver na mentira. Desta forma, os indivíduos ratificam o sistema, preenchem o sistema, fazem o sistema, são o sistema.
(Havel 1991.p.36, itálico no original)”
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15 de novembro de 2010

AS ACESSIBILIDADES EM MATOSINHOS

Era minha intenção ter comparecido no “Workshop sobre «Acessibilidade e Mobilidade para Todos»”… mas como não sei o que o significado de “Workshop” tive medo das consequências… não sou fã dos inglesismos.
Segundo o que a noticia da CMM transcreve, o Vice Presidente da câmara terá dito:
 “No dia-a-dia, há pequenos obstáculos no acesso a coisas que normalmente damos por garantidas. Só nos apercebemos desses obstáculos quando passamos por esse drama ou quando um familiar nosso se encontra nessa situação”
Apesar de não ter nenhum familiar com dificuldades de mobilidade… circulo pela cidade, não deixando de reparar nos atentados à mobilidade das pessoas portadoras de deficiência e a pessoas com dificuldade de mobilidade sem que caiam na tipificação de deficientes.
Assim, decidi alertar através do meu blogue… já que alertar o Vice Presidente por email seria uma perda de tempo e não obteria qualquer resposta... 
Na Rua Brito e Cunha encontra-se este atentado à mobilidade
















É evidente que esta situação tem anos e que não é da responsabilidade deste executivo… mas estando o Vice Presidente tão sensibilizado para a mobilidade na cidade… urge que a resolva prontamente.  
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9 de novembro de 2010

UM NOME

Di-lo-ei pela cor dos teus olhos
pela luz
onde me deito,
di-lo-ei pelo ódio, pelo amor
com que toquei as pedras nuas,
por uns passos verdes de ternura,
pelas adelfas,
quando as adelfas nestas ruas
podem saber a morte,
pelo mar
azul,
azul-cantábrico, azul-bilbau,
quando amanhece,
di-lo-ei pelo sangue
violado
e limpo e inocente,
por uma árvore,
uma só árvore, di-lo-ei:
Guernica!



Eugénio de Andrade
Poesia e Prosa
[1940-1979]
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