31 de outubro de 2009

"ESCREVO COM TERRÍVEL DIFICULDADE: REESCREVO, COLO, INTERPOLO, PUBLICO UM POEMA COMO QUEM O ESPELHA. ARMO A OFICINA EM QUALQUER PARTE, SEM TABULETA QUE O INDIQUE. NINGUÉM SABE, MAS ALI SUA-SE"



QUANDO NASCEMOS ENTRAMOS

Quando nascemos entramos


no nome pela voz dos pais:
– Dinis Albano….
Íntima e sonora identidade.
Chamam-me e volto
a cabeça, dissuadido.
Na voz duma mulher
os nomes são
interiores a nós .
(Na dum polícia, desprendem-se,
como se apenas
os envergássemos.)
Um amigo dirige-se-nos,
e as letras do nome
– tu?!... – correm de doçura.
Um dia, o nome,
por capricho duma veia ou dum fonema,
ocultamente, esvai-nos.
E por detrás dele,
alheados dos cultos,
nem sabemos da sua
cessação.

SEBASTIÃO ALBA



NINGUÉM MEU AMOR

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um


nos deitam


vendando-nos os olhos


SEBASTIÃO ALBA
(1940 - 2000)
(Pag. 76 e 61)
INLD, Maputo, 1981
Capa de A. Saldanha Coutinho

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